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Superman e os milhões “jogados fora” pela DC/Warner [Baile dos Enxutos]

E um pouco dos bastidores de Hollywood!

Nós, meros mortais,  costumamos criticar os executivos da grande indústria cinematográfica por gastarem dezenas de milhões de dólares em projetos que, às vezes, sequer chegam a virar filme. Um bom exemplo envolve as últimas produções com o Superman.

Logo após a estreia de Batman (idem, 1989), não só era certo que logo o Cavaleiro das Trevas voltaria ao cinema (o que de fato ocorreu), como o Último Filho de Krypton logo encerraria seu exílio e, mais uma vez, mostraria ao grande público civil que um homem podia voar. No entanto, não demorou para se ver que esta parte era um pouco mais complicada.

“Já dançou com o demônio sob a luz do luar?” Um ainda jovem Coringa – antes da maquiagem e dos cabelos verdes – assassina os pais de Bruce Wayne e se torna responsável pelo surgimento do Batman. E tem gente que defende esse filme com unhas e dentes…

Roteiros vieram e se foram, diretores foram dados como certo, os figurinos mais bizarros foram testados e um sem número de atores foram cogitados para o papel. Sem uma única cena gravada, estima-se que o filme do Superman consumiu, ao longo de mais de uma década, cerca de cem milhões de dólares de custos!

O produtor Jon Peters (à esquerda) e o diretor Tim Burton (à direita) chegaram a assinar contrato e começar a trabalhar num filme do Superman… Bom, na verdade em um estranho e bizarro personagem que, de alguma forma, eles acreditavam que as pessoas aceitariam como o Superman. Entre outras coisas, o herói não voaria nem usaria o uniforme clássico (considerado “afeminado”). Além disso, Peters defendia Sean Penn no papel de Kal-El, principalmente por causa de seus “olhos de um assassino”. Burton compartilhava desta falta de visão, alegando estar disposto a explorar um tal “lado homicida” do herói(!!!), não mudando de ideia nem quando o ator Nicolas Cage, escolhido para o papel principal, passou a combater as ideias esdrúxulas da dupla. Cerca de cinquenta milhões de dólares foram gastos até a Warner, em 1998, perceber que não teria como vender para o público um filme que já era odiado por uma parte da equipe que deveria trabalhar nele. Além do mais, ficou claro que os danos à imagem de Superman, em todas as mídias, seriam consideráveis.

A coisa voltou a se arrastar – também porque o (desculpem as palavras) Joel SchumaUcher deu um jeito de ser pior que Burton e tirar o Homem-Morcego dos cinemas – até que Bryan Singer, o sujeito que transformou os X-Men numa franquia cinematográfica e que misturou à contento super-heróis e ficção científica, deu uma entrevista em que declarava seu amor pelo Superman, principalmente pelos filmes de Richard Donner. Synger foi contratado e cancelou tudo o que fora feito até então, se empenhando em fazer uma sequência para Superman II (idem, 1980), inclusive recuperando antigas imagens de estúdio para ter novamente Marlon Brando como Jor-El. Quando Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006) nem chegou perto da bilheteria esperada, o investimento da Warner num filme com o kryptoniano batia na casa de US$ 350 milhões!

Bryan Singer conversa com Kate Bosworth (Lois Lane) e Brandon Routh (Superman). Diretor e estúdio não chegaram a um consenso de quanto foi gasto em Superman Returns, mas reportagens na época do lançamento falavam em um orçamento de produção (ou seja, sem contar o investimento em marketing) na casa de US$ 250 milhões.

O curioso é que fontes junto ao estúdio afirmaram que  os executivos sabiam que tinham nas mãos um filme “difícil”, excessivamente nostálgico, que carecia de um oponente à altura do protagonista e com decisões de roteiro capazes de enfurecer os fãs mais ferrenhos (super filho… cof!… asmático… cof! cof!). Mesmo assim, foi lançado e a decisão de rescindir o contrato do diretor adiada até que não pudesse provocar um estrago ainda maior na arrecadação.

Mas as despesas vultuosas e a bilheteria decepcionante não desanimaram a Warner, que menos de dois anos depois começou a trabalhar no reboot cinematográfico do Superman. Desta vez, não apenas consultando diretores de cinema, mas abrindo as portas para que renomados roteiristas de quadrinhos, do naipe de Mark Waid, Grant Morrison e Mark Millar, apresentassem suas ideias. Até que uma espécie de presente vindo de Gotham chegou ao estúdio!

Um que quase fechou para relançar a franquia nos cinemas foi o diretor Matthew Vaughn. Ele viria junto com o roteirista Mark Millar, com quem trabalhou nas adaptações de Kick-Ass (idem, 2010) e Kingsman (Kingsman: The Secret Service, 2014). Mas tanto a Warner como – acredito – o próprio Vaughn devem ter se assustado um pouco com a ambição de Millar, que entregou o argumento não para um, mas para três filmes (!!!) com quase três horas (!!!) de duração. Cada um.

Christopher Nolan, que mandava prender e mandava soltar no estúdio desde, o sucesso de público e crítica de O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), aproveitou uma reunião sobre o terceiro – e desastroso – filme da franquia do Morcego, para apresentar uma ideia de David Goyer para a reinserção do Superman nos cinemas. Nolan tinha ouvido os planos do roteirista, enquanto discutiam sobre os rumos a serem tomados na bat-franquia e ficou fascinado pelo que ouviu. Os executivos não demoraram a fechar contrato com a dupla, que iria produzir e escrever o novo longa com o maior de todos os super-heróis! Que, no fim das contas, custou mais US$ 225 milhões, apenas com produção.

Christopher Nolan conversa com Zack Snyder nos bastidores de Man of Steel. Este filme merece uma resenha, sim!

Ou seja, entre 1988 – um ano depois do execrável Superman IV – Em Busca da Paz (Superman IV: The Quest for Peace) – e 2013 – ano de lançamento de O Homem de Aço (Man of Steel) – foram gastos cerca de seiscentos milhões de dólares para no fim dois – sim, dois – filmes do personagem chegarem às telas de cinema.

É impossível julgar se a ideia de Goyer, que tanto fascinou Nolan, era realmente boa, pois não sabemos o quanto dela de fato chegou aos cinemas. Também não temos certeza se os executivos toparam pela qualidade do que foi apresentado ou por verem uma oportunidade de poder anunciar que um novo projeto cinematográfico com o Superman estava em desenvolvimento, tendo à frente a dupla bensucedida, responsável pelos últimos projetos com o Batman. Mas por quê este segundo motivo existiria e seria tão importante?

A origem de tudo está em 1976, quando foi promulgada nos EUA uma lei que abria uma janela de cinco anos para os autores ou seus herdeiros pedirem o cancelamento da cessão de direitos cinquenta e seis anos depois de firmada a mesma (em 1998, este prazo foi alterado para 75 anos), uma vez preenchidos dois requisitos: que a cessão tivesse sido concedida antes de 1978 e que a obra em questão não tivesse sido resultado de um trabalho contratado (work for hire). A ideia era que os criadores e seus descendentes pudessem usufruir por vinte anos dos direitos autorais da obra, antes que a mesma caísse em domínio público.

Com base nisto, em 1997 os herdeiros de Jerry Siegel – co-criador do Superman – começaram a discutir com a DC e a Warner, procurando “terminar” o antigo acordo de cessão, alegando que a concepção do personagem e a realização da história, que acabou sendo a primeira do herói, foram feitas sem que houvesse um contrato entre os criadores e a National (futura DC Comics), desqualificando a criação do Superman como work for hire. A solicitação de cancelamento foi acatada em 1999, mas a Warner não se entregou.

A disputa, óbvio, foi para os tribunais, onde cada parte teve seus momentos de triunfo, e envolveu não apenas os quadrinhos, como o merchandising e, claro, os direitos cinematográficos do personagem.

Joanne Siegel (1917 – 2011), seu marido Jerry (1914 – 1996) e Joe Shuster (1914-1992), o outro criador do Homem de Aço. Joanne chegou a comemorar uma decisão de 2008 que “devolveu” à família os direitos sobre o copyright de Action Comics #1, o que, na prática, dava a eles direitos – nos Estados Unidos – não apenas sobre o personagem Superman, como também quaisquer outros elementos que tivessem aparecido nesta edição, inclusive a primeira versão do uniforme (que inclui o emblema em S simples) e a origem clássica. Esta sentença foi posteriormente derrubada.

Em 2009,  uma decisão judicial tentou “agradar a todos”: a Warner manteria o controle sobre os filmes do Homem de Aço e não seria obrigada a pagar nenhum royaltie pelos realizados até ali; já os herdeiros não apenas teriam compensação financeira por futuros filmes, como poderiam processar o estúdio se até 2011 uma nova obra não entrasse em produção, alegando “lucro perdido”.

Esta treta é um dos motivos para o terrível Novos 52 e a volta do Multiverso. Tudo isto trouxe severas mudanças de visual e essência aos personagens, que tiveram suas origens e personalidades, em alguns casos, severamente alteradas. Tanto que, uma vez resolvida a questão à contento para a Warner, os heróis da DC aos poucos estão retornando para as suas “verdadeiras” faces, com o Rebirth.

Assim, fica claro que a Warner precisava tocar algum projeto relacionado ao Superman nos cinemas, para evitar que os herdeiros de Siegel – ou os de Shuster, que poderiam entrar na disputa posteriormente – alegassem o “abandono” do personagem pelo estúdio, o que serviria de base para novas ações judiciais, com a Warner correndo o sério risco de perder os direitos cinematográficos do kryptoniano ou ter que pagar vultuosas indenizações pela sua inércia.

Resumindo: melhor gastar tentando fazer algo que poderia, um dia, dar algum lucro, do que ter “perda total” cedendo direitos ou pagando pelo NÃO uso do personagem.

Henry Cavill em O Homem de Aço, no papel-título.

“Mas”, alguém poderia perguntar, “qual a lógica de gastar dezenas de milhões de dólares com filmes que não aconteceram? Não seria menos dispendioso fazer um acordo com os herdeiros e trabalhar com calma, sem sustos ou pressão?”.

Bom, em primeiro lugar, temos que lembrar que não podemos mensurar quanto custaria o “licenciamento” – ou uma nova cessão de “diretos perpétuos” – do personagem para DC (quadrinhos, um acordo), para a Warner (filmes, outro acordo) e demais formas de utilização (games, parques temáticos, merchandising, etc.), mas não seria pouco dinheiro.

Também havia uma possibilidade de desastre à longo prazo, pois, ainda que perdesse o processo para os herdeiros, a Time Warner não apenas continuaria dona da “marca” Superman nos EUA, como manteria os direitos internacionais sobre o personagem. É fácil perceber o caos que poderia ser gerado se, por exemplo, a Disney fizesse uma grande proposta aos Siegel, para produzir um filme do homem mais rápido que uma bala.

Em 2002, a treta se estendeu ao Superboy. Dois anos depois, a família Siegel foi com força sobre a Warner, em uma ação que questionava a utilização do personagem, principalmente na série de TV Smallville. Acredita-se que a discussão judicial foi um dos motivos para que o programa perdesse força – e, principalmente, investimento – daí em diante, mesmo tendo boa audiência, terminando de forma frustrante, ao não mostrar o personagem voando ou fazendo uso do seu uniforme clássico.

Agora, acima de tudo, sou de opinião que o principal incentivo para que a Time Warner continuasse gastando em argumentos, roteiros e designs que, no fim das contas, não foram desenvolvidos, mas continuam a ser de sua propriedade, em vez de entregar quantias vultuosas para as herdeiras de um dos criadores do personagem, foi o fato de ter sido firmado um acordo com elas, que voltaram atrás depois que o polêmico advogado e produtor cinematográfico Marc Toberoff entrou no circuito, “do lado” (aspas indispensáveis!) das senhoras Siegel.

Outra coisa que deve ter tido influência prática zero, mas que inflama discussões, é a imagem negativa que a Time Warner sempre ganha nestes casos, por conta da situação de penúria em que faleceram Jerry Siegel e Joe Shuster. Observem que o acordo firmado no fim do século passado não foi o primeiro: ainda em 1938, ao custo de 130 dólares – cerca de US$ 2.180,00 nos dias de hoje – e, extraoficialmente, um contrato de dez anos como criadores, Siegel e Shuster cederam à National “direitos perpétuos” sobre o Superman. Já em 1948 (ou seja, após o término do contrato de trabalho), em outra disputa judicial, foi decidido que a editora continuaria detentora dos direitos de copyright, mas os autores receberam a quantia de US$ 94 mil, equivalente hoje à quase US$ 970.000,00.

Joe Shuster, Neal Adams, Jerry Siegel e Jerry Robinson.

Já em 1975, uma campanha, comandada pelo artista Neal Adams, fez com que a DC fizesse um novo acordo com a dupla de criadores, que se encontravam em dificuldades financeiras. Não apenas foi garantido o crédito aos mesmos (o famoso “Superman, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster”) como uma “compensação” aos autores: uma pensão vitalícia de vinte mil dólares (posteriormente aumentada para trinta mil) anuais para cada um. Nos valores de hoje, pouco mais de US$ 93.000,00.

Tá bom? Pois em 2016, em decisão de última instância (9ª Corte de Apelação), a Time Warner venceu a disputa, pois foi reconhecido como válido um acordo milionário feito em 2001 entre o grupo corporativo e a família de Jerry Siegel, em que uma nova cessão foi negociada e os direitos sobre o personagem foram definitivamente transferidos para a Warner. Para os julgadores, a lei de 1976 obrigava uma revisão dos contrato de cessão, mas não anulava o ato em si. Com o acordo apresentado pela DC/Warner – considerado “altamente lucrativo” -, se deu por encerrada a questão.

Não à toa, foi apenas na segunda temporada que o Superman (Tyler Hoechlin) apareceu na série da Supergirl (Melissa Benoist).

Um caso arrastado, cheio de nuances e, para aqueles que odeiam até a menção a códigos, leis e “aplicadores do direito”, chatíssimo. Mas que, espero, tenha mostrado um pouco das engrenagens que levam a certos investimentos que parecem “loucura” em Hollywood. No fim, para mim ficou a impressão de que estivemos diante de mais um caso da “vida real”, sem heróis reluzentes, vilões tenebrosos e, principalmente, vítimas inocentes. Agora é esperar o que irá ocorrer em 2033, quando o Superman, pela lei americana, deverá cair em domínio público. Isso, claro, se, mais uma vez, a Disney não resolver a treta de antemão. Afinal, o Mickey Mouse deve se tornar “público” dez anos antes.

Fonte: Superman e os milhões “jogados fora” pela DC/Warner – Baile dos Enxutos

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Publicado às 03/07/2017 por em BláBláBlá e marcado , .

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