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Somos Galactus e Anti-Monitores, Devoradores de Mundos, Destruidores de Universos. 

POR 

Já estou nessa vida há pelo menos 24 anos. Falo da rotina autoimposta de acompanhar quadrinhos de super-heróis. Comecei com A Morte do Super-Homem, de 1993, e de lá pra cá, o número de títulos que acompanhei cresceu exponencialmente. Não detalharei essa parte da minha história, pois já falei dela em outra ocasião, e não é exatamente o foco aqui.

Em mais de duas décadas lendo HQs do gênero, nada conseguiu superar o assombro que senti lendo Crise nas Infinitas Terras pela primeira vez. Se você é leitor de quadrinhos da DC Comics há pelo menos uns 5 anos, já deve ter ouvido falar dela, ou mesmo lido o último relançamento da saga no Brasil (embora este seja um privilégio de poucos, já que sua última republicação foi numa edição luxuosa lançada pela Panini Books).

A primeira vez que li Crise nas Infinitas Terras foi em 1996. Ela foi relançada pela Abril Jovem em maio daquele ano, três meses antes do início da então inédita Zero Hora, que naquela época foi o correspondente ao que foi a Crise, quando originalmente publicada em 1985, e a recente Convergência. Ou seja, mais uma daquelas grandes histórias onde quase todos os heróis e vilões da DC Comics se unem para enfrentar mais uma ameaça cósmica ao contínuo espaço-tempo e à própria existência de seu universo. O que sempre foi uma ótima desculpa pros autores da editora criarem um novo ponto de partida (os leitores mais novos o chamariam de Ponto de Ignição) e, por consequência, uma chance para que novos leitores conhecessem personagens com décadas de existência, como o Superman, o Batman e a Mulher-Maravilha (só pra ficarmos com a Trindade da DC).

Como eu disse acima, nenhuma saga que saiu nos últimos 20 anos conseguiu superar a Crise de 1985, e estou certo que muitos concordarão comigo, embora eu não me importe com aqueles poucos que discordarão. Este também não é o foco desse texto.

O ponto aqui não é quão grandiosa foi a saga que redefiniu o Universo DC há mais de 30 anos (32 anos pra ser mais exato). O ponto aqui é que eu já vi isto acontecer pelo menos uma meia dúzia de vezes desde que leio quadrinhos de super-heróis. Sim, eu estou falando de ciclos, de temas recorrentes, por maiores e mais drásticas que sejam as mudanças ocorridas ao longo de tais ciclos. Tanto a DC quanto a Marvel usam este recurso, porque é a melhor (ou menos arriscada) estratégia que encontraram para renovar seus leitores, e lidar com a complexidade atingida por sua cronologia, e os paradoxos gerados por décadas de histórias escritas por centenas de autores, cada um com sua interpretação de alguns dos milhares de personagens em seus respectivos universos.

É um movimento natural das donas de grandes marcas, com uma quantidade tão intimidadora de personagens, mundos, artefatos, linhas temporais alternativas e universos paralelos, como é o caso da DC e da Marvel.

Mas, este também não é o ponto desse texto. O ponto dele começa com uma pergunta que alguns de vocês já devem ter feito em algum momento de suas vidas como leitores de quadrinhos de super-heróis: por que eu continuo insistindo em acompanhá-los?

A resposta não é tão simples quanto pode parecer a alguns, e certamente não será única, pois cada um tem sua opinião a respeito. Mas não estou aqui pra falar de outros pontos de vista. Essa coluna se chama Rodrigo Reflete, então creio que não estou enganando ninguém sobre qual ponto de vista será exposto e defendido aqui.

Dito isto, vamos ao que interessa. O motivo pelo qual muitos de nós… Ok. Aqui cabe uma pausa, e uma observação. Preste muita atenção no que direi agora: O motivo pelo qual muitos de nós (e não todos) continuam acompanhando quadrinhos de super-heróis, é porque nos alimentamos deles.

Posso dizer com certa segurança que, se você chegou até este parágrafo do texto, após ler cada um dos que vieram antes, é porque você tem o mínimo de interesse em saber onde quero chegar com ele. Então eu também presumirei que você conhece, ou pelo menos ouviu falar, dos dois personagens citados no titulo. Galactus, o Devorador de Mundos, e Anti-Monitor, o Destruidor de Universos.

O primeiro é uma das entidades cósmicas mais temíveis e poderosas do Universo Marvel. O segundo foi o grande vilão da Crise nas Infinitas Terras.

Galactus foi uma ameaça tão grande para o Quarteto Fantástico que seu confronto com os heróis literalmente consumiu três edições da série deles pra ser narrado. Isto não era muito comum na época em que a chamada Trilogia de Galactus foi publicada.

O Anti-Monitor, graças ao nível de ameaça que representou – nada menos que a liberação de uma onda crescente de antimatéria capaz apagar da existência universos inteiros – precisou das doze edições da Crise nas Infinitas Terras pra ter narrada a épica história da crise cósmica que ele desencadeou no Multiverso DC.

Nessa altura você pode ter pensado que, se botássemos o Galactus pra lutar contra o Anti-Monitor, ele não teria a menor chance. Mas este também não é o foco desse texto, então, pare de pensar num crossover entre eles, e dê uma olhada nas artes abaixo:

Satisfeito? Então prossigamos…

Pense no que eu afirmei no título: nós, que lemos quadrinhos de super-heróis há mais de cinco anos; ou que já está nessa vida há mais de dez; ou, pior ainda, que está lendo as aventuras dos heróis da DC e da Marvel há mais de duas décadas, não somos muito diferentes dessas duas entidades cósmicas.

Nos alimentamos da vida e da morte destes heróis e vilões. Exigimos novas histórias deles. Somos parte do público-leitor responsável por manter vivos os Multiversos da DC e da Marvel, mesmo que, de tempos em tempos, demandemos sua completa destruição, apenas para que renasçam das cinzas, novos, novinhos, novíssimos, embora reciclando ideias já usadas à exaustão em versões anteriores de si mesmos.

Ou, se preferir uma comparação mais histórica, tornamo-nos a Morte, a destruidora de seus mundos. Somos o correspondente cósmico ao que Robert Oppenheimer foi para o nosso mundo, como um dos responsáveis pela criação da bomba atômica (que não é uma ideia melhor, e nem mais poderosa que o Superman – mais sobre isto aqui).

“Tá, e daí?”, você pode ter pensado, agora que chegou até aqui. E daí que, pra mim, já deu. Eu não quero mais ser um dos responsáveis por mundos morrerem e novos mundos nascerem. Não nesta vida. Não quero mais ser um dos responsáveis por destruir grandes ideias incentivando seu desgaste através de reboots e renascimentos que perpetuem tais ciclos de destruição cósmica.

Ano passado concluiu-se a nova versão da saga Guerras Secretas, que por si mesma é uma reinterpretação da saga homônima lançada pela Marvel Comics em 1984. Nela o Multiverso da Marvel foi quase completamente obliterado, restando apenas o Mundo Bélico, um planeta que era uma espécie de colcha de retalhos formada por pedaços de Terras alternativas. Concordo com os que dirão que a ideia está longe de ser original, mas, ao mesmo tempo, admito que a sacada de formar um mundo a partir de fragmentos de outros, mesmo não sendo genial, foi boa. Até onde eu sei, foi uma ótima saga (que ainda não li, mas pretendo fazê-lo). O que interessa aqui não é a saga em si, mas sua real função: criar um novo ponto final para a versão anterior, e um ponto de partida/ignição para a nova fase da Marvel. Não foi um reboot, mas uma forma de dizer: “Sim, nós sabemos que destruímos o Multiverso mês passado, mas contaremos histórias legais daqui pra frente, sem citarmos esse ‘pequeno’ inconveniente. Ele faz parte da fase anterior. O que nos interessa agora é a nova.” E foi o que aconteceu:

Não vou fingir algo que não fiz. Eu comecei a acompanhar algumas séries que a Marvel reiniciou após Guerras Secretas. Estou lendo Doutor Estranho, Homem de Ferro, Capitão América, Thor e o mix Homem-Aranha e Deadpool. Até onde eu li, consegui me divertir com cada uma delas. Pretendo continuar com algumas, não todas. Mas garanto que não farei isto indefinidamente, e que não perderei tempo nem dinheiro com a próxima saga da Marvel, nem com a próxima da DC.

Admito que pensei em acompanhar a fase Renascimento da DC, que a Panini está começou a publicar no Brasil mês passado. Mas, semana passada, durante o Star Wars Day, cheguei a uma conclusão: estou cansado dos universos Marvel, DC e Star Wars. Não só deles, mas também daqueles que começaram muito bem e terminaram como produtos genéricos de algo que, um dia, foi original e empolgante. Nesta lista eu incluiria a série Alien (mais sobre ela aqui), Predador, Exterminador do Futuro, Jurassic Park e Robocop, só pra citar as mais óbvias, e as que tem um número de fãs na casa dos milhões. Estou cansado de acompanhar universos desenvolvidos sem critério, uma autocrítica mais afinada e autores mais dedicados a contar boas histórias, ao invés de apenas ajudarem grandes empresas a preservarem seus direitos sobre o uso de seus personagens. Eu não quero mais ser um dos arautos da destruição destes universos.

Galactus foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby, enquanto o Anti-Monitor foi um dos rebentos da dupla Marv Wolfman e George Pérez, mas, no fundo, por trás da concepção de ambos, indiretamente, nossas mãos estavam puxando as cordinhas dessas duas marionetes de destruição cósmica. Galactus e Anti-Monitor só passaram a existir porque os heróis e vilões da Marvel e da DC precisavam de desafios maiores do que os enfrentados até então, precisavam de um adversário maior que a soma de suas vidas, universos e tudo mais. Precisavam de uma ameaça definitiva, porque queríamos mais poder, mais personagens, mais porradaria, mais mortes, mais ideias maiores que nossa vidinha pacata de cidade de interior, ou nossa vida estressante de cidade grande. Nós queríamos ter o controle de algo, e conseguimos. Temos o controle sobre universos inteiros. Ditamos suas regras, suas leis, e definimos os meios de quebrá-las ou distorcê-las a nosso favor, corrompendo tudo para a nossa satisfação. Votamos em quem vai morrer e quem vai viver, pagando por isto. Nós pagamos! Você já parou pra pensar nisto? Nós pa-ga-mos pra testemunhar a morte de ideias mais nobres do que jamais seremos. Mundos mais fantásticos do que o nosso jamais será. Porque isto satisfaz nossa fome, nosso consumismo cósmico.

E assim, mundos morrem, heróis se sacrificam, pra depois renascerem, novos, novíssimos, mas, no fundo, compostos da mesma matéria-prima de sempre: nossos sonhos não realizados, impressos nos cadáveres de seres que já foram maiores do que nós e que hoje, jazem em nossas prateleiras, ao alcance de nossas mãos…


Dedico esse texto à minha amada Raquel, e aos meus amigos Aélsio Viégas e Sérgio Delduque. Obrigado por inspirarem algumas das reflexões aqui expostas. E muito obrigado por me ajudarem a ser menos Galactus e mais humano.

Fonte: [RODRIGO REFLETE] Somos Galactus e Anti-Monitores, Devoradores de Mundos, Destruidores de Universos. | NERD GEEK FEELINGS

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Publicado às 18/05/2017 por em BláBláBlá e marcado , .

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