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A história da recente queda de vendas da Marvel e uma discussão franca com os lojistas sobre isso

Ao longo dos anos, os quadrinhos passam por altos e baixos e é natural mudanças que levem a lugares mais ousados seguidos imediatamente de retornos para o comum quando as coisas começam a ficar instáveis. Desde o começo do ano, o que se circulavam nos bastidores do mercado americano de quadrinhos é que havia um levante de alguns lojistas insatisfeitos com mudanças recentes que a Marvel havia tomado de uns tempos pra cá e que culminaram no que eles acreditavam ser numa sensível queda das vendas a partir de outubro das revistas da editora, que sempre despontou por suas altas vendas nos últimos anos. E neste último final de semana, esse burburinho de insatisfação veio finalmente a público e entrou em choque diretamente com o Editor-Chefe e o Vice-presidente responsável pelas vendas da Casa das Ideias na  primeira reunião com lojistas da Marvel que aconteceu na sexta-feira passada.
O que se falava da direção da Marvel antes?
Um dos site de notícias de quadrinhos mais turbulento dos EUA, o Bleeding Cool, desde o começo do ano propagava que a Marvel estaria discutindo uma mudança bem diferente da direção que tomou de uns tempos pra cá. As primeiras pistas vieram com base nas mudanças inesperadas na franquia dos X-Men, por exemplo. Depois de tantas mudanças e reviravoltas no mundo dos mutantes, entra o roteirista Marc Guggenheim (renomado co-criador da série Arrow) nos roteiros e diz que sua passagem pelo título vai se direcionar a algo mais clássico e colocar os X-Men nos eixos com o status de uma equipe de fato de super-heróis. Um trecho da conversa chama atenção no ponto que diz que “será mais sobre X-Men sendo heróis do que X-men lutando para uma minoria sobreviver”. O curioso dessa questão é que desde sua existência, a história dos X-Men gira em torno do tema de preconceito e aceitação. E a colocação de Guggenheim pode apenas ser um pedaço da ponta de todo um burburinho que está rondando a Marvel depois da última reunião anual de roteirista que eventualmente acontece todo começo de ano.
Naquela época, o site Bleeding Cool afirmava que pessoas internas diziam que uma das pautas da conversa é que os grandões da Marvel estariam mais inclinados a ouvir uma reclamação de parte dos lojistas e dos leitores em colocar fora dos quadrinhos as questões políticas. Nas palavras literais do que foi dito, a ideia é entregar ao público histórias em quadrinhos “feijão com arroz” (nosso equivalente para algo básico, no original do texto, dizia-se “meat and potatoes”). O que mais chama atenção nisso tudo é que a Marvel estava preparada para encarar um ano de 2017 com extrema ousadia e tocar na ferida de várias questões delicadas nesse assunto. O título dos Campeões que foi uma das maiores vendas do ano passado surgiu dentro de um racha de pensamento entre gerações e o modo de ver o mundo numa equipe de Vingadores formada por heróis bem mais jovens e os clássicos; Personagens que conquistaram seu público cativo ao longo destes anos como a Kamala Khan e Miles Morales sempre giraram em torno de questões sociais ao lado da luta contra os vilões. E a maior saga prevista do ano – IMPÉRIO SECRETO – tem Nick Spencer na direção, que certamente estava pronto para alfinetar visões extremistas de certos setores da vida fora dos quadrinhos. O cenário político atual certamente é um prato cheio pra ele.
Na época, Bleeding Cool falava que a Marvel tinha plena consciência que a saga sendo preparada – Império Secreto – é maciçamente uma história de altíssima qualidade, mas que ainda assim o incomodo que ela pode vir a causar a certas pessoas, não importa exatamente quais sejam suas crenças políticas, poderia ser um problema no objetivo final, que são as vendas. Daí, teria vindo uma espécie de alerta para que depois da saga, aos poucos os roteiristas deveriam buscar um caminho que rumasse para o “básico”. A ideia inclusive se expande para questões de identidades visuais e o que se tinha como rumor na época é que após Império Secreto e durante o outono de 2017 os personagens aos poucos voltassem aos “clássicos”. E isso incluiria a volta das velhas versões do Thor, Homem de Ferro, Hulk e Capitão América como conhecíamos. Pelos boatos que corriam na época, há o movimento inclusive de trazer o Wolverine original de volta.
Os comentários após a reunião anual é que a Marvel também queria recomeçar o ano de 2018 com uma turbinada na sua galeria de roteiristas. Era questionado que ela era uma editora que levava grandes roteiristas ao estrelato como Rick Remender, Ed Brubaker, Sean Phillips, Matt Fraction, Kelly Sue DeConnick, Jamie McKelvie, Jonathan Hickman, Warren Ellis e Kieron Gillen, mas que os perdia sempre ao longo do tempo depois deles fazerem nomes. Basicamente, o que se dizia é que a editora conta atualmente apenas com Brian Michael Bendis, Dan Slott e os novatos Nick Spencer, Al Ewing e Ta-Nehisi Coates como roteiristas de nomes atraentes para o público fã de suas histórias. A ideia da empresa seria mudar isso, portanto, e ter um galeria de nomes impactantes para cuidar dessa nova guinada nas histórias em 2018.
O que apontava os lojistas já no começo do Ano?
Em contrapartida ao que se noticiava sobre os boatos lançados pelo Bleeding Cool, um dos sites mais antigos e prestigiados de quadrinhos, o Newsarama, fez uma série de artigos reunindo em Janeiro os pontos mais complicados que os lojistas e alguns editores apontavam. A principal palavra da vez? Supersaturação!
“O número de títulos das editoras agora está mais alto do que em qualquer outro momento. São demais? Ou o grande número de títulos estaria ajudando a indústria” dizia um dono de Comic Shop da Califórnia ao site. O próprio diretor de vendas de uma das grandes editoras americanas, a BOOM! Studios, apontava que eles mesmos eram responsáveis pelo aumento de lançamentos de alguns lojistas entre os anos de 2014 e 2015 e que muito excitados com o mercado em crescimentos, tendem a lançar mais produtos e que quando eles mal podem perceber, o mercado atinge seu aclive e as vendas acabam canibalizadas. Ciente disto, a BOOM! anunciou uma redução de 15% de seus títulos para se reacomodar este ano. O mesmo foi apontado pelo editorial da Dark Horse na matéria, com seu vice-presidente de publicações Randy Stradley citando um velho ditado às avessas de que “uma coisa que é certa é que quanto mais não significa necessariamente melhor”.
Quando se tratava das grandes editoras e campeãs do mercado, Marvel e DC, um dos lojistas de Ohio comentou na matéria que as editoras de super-heróis são uma das maiores culpadas pelo alto número de títulos por semana. A DC de um lado deixou sua fixação pelo número 52 fixo para se permitir a se concentrar em títulos principais publicados duas vezes por mês. Já a Marvel tem um dos maiores números de títulos individuais. “A Marvel é a maior culpada da super-saturação” apontou um lojista de Arizona. ” Dynamite e IDW podem até ter saido um pouco o controle com seus novos títulos licensiados e seus crossovers, mas a Marvel tem um número incontável de títulos que estão acumulando, não vendem nada na minha loja” garantiu.
A consequência lógica que se chega é que com tanto título no mercado, a qualidade tende a cair. Newsarama apontou que a Image entre os lojistas é a que melhor se sairia nisto, com poucos materiais publicados e sempre mantendo a qualidade com uma incrível diversidade de tipos, gêneros e estilos. Na matéria, o editor-chefe de criação da Valiant, Dinesh Shamdasani aponta que costuma seguir uma tendência diferente das demais grandes editoras e que o pouco espaço que ele compete pra ter suas publicações nas prateleiras das lojas é o que o faz ter como objetivo principal fazer dos seus títulos o de melhor qualidade para atrair o máximo de leitores diferentes para curtirem o material. “Enquanto que o espaço nas estantes das lojas podem ser um problema para diversas editoras competirem entre si, pode ser também um grande motivador para estabelecer a qualidade” disse.
Em contrapartida a ideia de contração do mercado, não excluiu no artigo a tendência de se pensar numa expansão dos diferentes gêneros de quadrinhos para os novos leitores. “É nossa preocupação também se a industria não consegue pensar em novas maneiras de ter mais títulos e aumentar sua visão com a variedade de gêneros tanto para nossa base de leitores mais velhas quanto a mais nova” apontou um que foi imediatamente embasado por outros lojistas. “Nem todo o livro tem público em cada uma das lojas, mas não é melhor termos mais opções?” e “Já viu as pessoas reclamarem por ter mais opções para TV, mesmo tendo mais de 500 canais, e os streamings como Hulu, Netflix e outros? Nos quadrinhos não é diferente” levantaram.
Mesmo diante de tantos fatores, a conclusão do problema é que “Há revistas demais agora, mas que o mercado decida no final o que vai ser delas”.
O que rolou na primeira reunião da Marvel com lojistas do ano?
Diante de tanto burburinho de bastidores e com os poucos impressionantes números que a Marvel apresentava nas vendas desde outubro, a primeira reunião da Marvel com lojistas certamente iria receber mais holofotes e destaque do que usualmente acontece. E ao invés de apresentar novas iniciativas ou eventos, o editor-chefe Axel Alonso e o vice-presidente de vendas da editora David Gabriel tinham a difícil tarefa de justificar o micro-colapso que causaram nos últimos meses nas próprias vendas. A reunião que geralmente é de portas fechadas, teve pelo menos um site realizando a cobertura oficial mas com embargo para revelar as novidades do ano da Editora. O IcV2 reproduziu na integra (em dois artigos) tudo o que rolou por lá e que colocamos aqui resumidamente em tópicos:
Sobre os Novos e Velhos Personagens:
David apontou que a resposta ao feedback que tiveram das lojas que muitos personagens estavam mudando era a nova iniciativa chamada Generations. Mesmo com os novos heróis surgindo, a ideia é mostrar que eles não perderam as versões clássicas de vista. Axel Alonso justificou o motivo da substituição dos novos personagens pelos velhos. “Estamos num período em que a cultura pop como um todo tem se colocado numa discussão maciça sobre inclusão e diversidade. Foi um tema maciço no último Oscar. Isso meio que adentrou em nossa cultura, através da Disney e em tudo. Estamos pensando muito nisso. Mas a Marvel não é sobre política. Somos sobre contar histórias sobre no nosso mundo. Quero acreditar que somos uma extensão do que o Stan fez. Quando eu olho para o que estamos fazendo, estou procurando contar histórias que importem para o nosso tempo. É a coisa mais importante”.
Em resposta a essa tópico, alguns lojistas se levantaram e deram sua opinião. “Se a qualidade de base do material é bom, vai se sair bem. Temos de vocês muitos sucessos como o Miles sendo Homem-Aranha e a Miss Marvel da G. Willow Wilson, mas é porque a qualidade do material é bom. Mas eu posso citar outros exemplos que foram direcionadas para essas questões, que o material não era bom e nunca decolou. Não acho que a diversidade seja um problema, contanto que o produto seja bom” disse um. Já outro se manteve contra a questão “Quando você cita o Oscar e como isso é um tópico primordial deles, eu olho com frieza, com uma realidade dura, e eu sou um empresário. Muitos desses filmes, ou outras mídias, não são os que fazem mais dinheiro no mercado. E pra mim, o que estou preocupado é se eu vou vender o produto ou não”. Já outro lojista aponta que apesar de esses títulos não venderem o que se espera, ele disse que ao menos traziam pessoas diferentes aos seus costumeiros clientes em suas lojas e colocou que “eles trazem uma demografia de vendas diferentes, e eu estou feliz por ter esse dinheiro também na minha loja”.
Reboots e Renumerações:
David Gabriel apontou que nos últimos três anos, a Marvel tem se valido de recomeçar edições sempre que podem do número um e isso tem dado a empresa sempre números muito altos no mês. Cada novo título número #1 gera em retorno uma venda de 100 a 300 mil cópias vendidas. Isso no entanto mudou desde o começo do Marvel Now em outubro. Qualquer um leitor do nosso site que é antenado nos números mensais de venda sabe que a Marvel não emplaca bem as vendas de seus novos números #1 faz uns quatro meses e que essa estratégia está indo pro ralo.
Um dos lojistas foi taxativo na questão. “Acho que chegou-se a um ponto de inércia aí. Quando começamos um novo número um e tentamos sair dessa inércia, o que vemos é a quantidade de pessoas que sai é a mesma que entra. Vocês já devem ter percebido isso” colocou. A resposta contra isso provavelmente vai ser com mais incentivos – isso inclui capas variantes e coisas do tipo – em edições de número 24 e 25, por exemplo. “Essas edições não tem uma fração da venda do que tem um número #1, mas é um fardo que todos teremos que lidar sempre juntos. Quando se tem uma edição de 15, 16 e 17, como faremos para que eles saiam das 40 a 60 mil unidades para vender 150 mil?” colocou.
Para consertar esse problema, a Marvel planeja seguir diferentes caminhos. Desde edições de capas exclusivas mais caras (preço de $9,90) como foi numa edição 25 do Amazing Spider-man (que acabou triplicando as vendas naquele mês) a voltar a numerações antigas comemorativas como recentemente vai acontecer com Venom. Um dos lojistas foi mais a fundo no problema e apontou que o grande problema da renumeração é se a equipe criativa que segue o título tem nome e talento suficiente para manter o interesse do leitor. Outros tantos problemas foram apontados pela platéia e o que se concluiu é que é um balanço difícil de se chegar até quando essa estratégia da renumeração é válida.
Expandido o número de títulos de um mesmo personagem:
Um problema velho na Marvel certamente é a superexposição de personagens. Quando antes era o Homem-Aranha e o Wolverine que levavam a fama, hoje em dia temos para diversos outros títulos. Temos no mercado mais de uma revista do Homem de Ferro, Capitão América, e nem se fala no Deadpool. “Há tantos Deadpools saindo que os números de cada um deles começam a cair e a cair. As pessoas estão se dividindo entre eles. Eles não sabem por onde começar e qual devem ler” reclamou um deles que diz que com isso o número de venda se espalha entre as diferentes revistas dos personagens.
Gabriel afirmou que isso é uma briga interna deles também, mas Alonso explicou o motivo de isso acontecer. Lembrou que a minissérie Deadpool Kills the Marvel Universe do Cullen Bunn foi um sucesso de vendas inesperado anos atrás e que eventualmente eles lançam tantas minisséries do mercenário tagarela para tentar replicar isso. Caso não aconteça, eles apenas seguem pra próxima tentativa.
Sobre manter os velhos talentos e trazer novos talentos:
Como apontado no começo desta matéria, a Marvel tem realmente tido dificuldades já faz alguns anos em manter uma equipe de roteiristas e artistas como alicerce das histórias e isso tem preocupado os lojistas. Alguns lojistas levantaram que essa perda de talento é diretamente ligada aos trabalhos deles com a Image, em que mesmo vendendo metade das cópias de suas revistas com trabalhos autorais lá, eles chegam a fazer com isso o dobro do que eles geralmente fazem numa revista Marvel. Alonso negou que o fato, ao menos não é verdade em todos os casos. “Eu não duvido que isso aconteça com os maiores títulos autorais, mas certamente não é verdade com os títulos autorais que vendem pouco” disse o Editor-Chefe.
David Gabriel se levantou para lembrar que a Marvel é responsável por pegar os caras talentosos e ainda pequenos na industria que ninguém nunca ouviria falar e que dá uma turbinada na carreira deles num nível gigantesco. Em todo caso, aponta que esse não é um problema fácil de lidar e que depende mais do profissional do que da editora. São caras que segundo eles aceitam um contrato para trabalhar aquelas 12 edições e logo depois querem cair fora. Alonso afirmou também que os tempos são outros. Não é mais aquele tempo em que existia a Wizard Magazine que media a popularidade dos artistas e eles sabiam quais caras que realmente poderiam fazer grandes vendas de um título só pelo seu nome. Alonso também comentou que trabalhar com os grandes medalhões com nome de peso na industria nem sempre é fácil, mas que eles tentam manter uma boa relação e a porta aberta para esperar sempre que eles tem uma boa oportunidade.
Esse último pronunciamento do Editor-Chefe acabou causando certo mal estar dias depois entre os próprios artistas da Marvel. Ao citar o nome de Steven McNiven e de Olivier Coipel como os únicos que podem fazer qualquer coisa vender, deixou nas redes sociais muitos outros antigos e atuais profissionais da Marvel intrigados. Um dos primeiros a se levantar foi Erik Larsen, que reclamou que depois da evasão dos grandes profissionais da Marvel para a Image, a politica da editora foi de não promover seus grandes desenhistas como fazia antes. “Fez a cama que dormiu” apontou ele pelo seu twitter logo depois.
Fatigação do mercado com grandes eventos e preço alto de seu material
É incontestável que desde que começaram a avalanches de eventos atrás de eventos, tanto a Marvel como a DC tem conseguido angariar mais cifras no mercado. No entanto, mesmo isso parece demonstrar sinais de cansaço recentemente. O número de eventos e até mesmo sua sobreposição, às vezes, faz com que o que era para ser uma aumento de vendas, acaba perdendo seu foco. Essa é a questão problemática apontada pela maioria dos lojistas ali. David Gabriel foi meio ríspido ao tentar se defender de que mesmo que no começo ocorra um número volumoso de vendas das primeiras edições de uma minissérie, não há como impedir que os últimos números vendam menos. Para ele, é algo natural de acontecer. No caso de Império Secreto que já começa agora e durará quatro meses, eles já pensaram em emendar pra Setembro com Generations para já levar a nova grandes vendas da editora. Esse tipo de estratégia não foi muito bem vista pela platéia local.
Axel Alonso mudou o foco da discussão dizendo que muitas vezes a queda de venda dos últimos números pode ser culpa dos atrasos que as últimas edições sofrem e prometeu que isso não se repetirá em Império Secreto. Foi por isso que ele colocou diferentes artistas para cuidar dos diferentes números como estratégia para evitar esse problemático atraso. Alonso afirmou que isso igualmente prejudica a Marvel e muitas vezes acontece ainda de dentro de uma programação já estabelecida, o roteirista e artistas precisarem de uma edição extra pra concluir a maxissérie e isso desprograma tudo no cronograma deles, mas é algo que inevitavelmente acontece.
David Gabriel quis encerrar o tópico prometendo que depois de Império Secreto, não há mais grandes eventos a vistas para 2017 e que a programação não prevê mais nenhuma vindo pelos próximos 18 meses. Ainda assim, os lojistas apontaram a necessidade de existir mais minisséries (não como grandes eventos), o que sempre levanta as vendas ao longo do ano. Houve uma discussão aberta sobre o impacto do uso do termo “Série Limitada” nas vendas, que é visto quase sempre como um produto que já sai em desvantagem nas vendas em qualquer produto Marvel, excetuando-se Star Wars.
Como um dos últimos tópicos da reunião, levantou-se a questão do preço mais caro dos encadernados da Marvel. Um encadernado dos Inumanos com o mesmo número de páginas de um clássico do Batman chega a custar 10 dólares a mais. A grande questão aí seria se um encadernado de baixo custo acarretaria uma venda ainda menor das mensais, estimulando os leitores a esperarem os encadernados. Apesar de não muito favorável a ideia, David Gabriel disse que seria simpático a ideia de estudar um meio de diminuir os preços desses produtos.
O que houve de tão polêmico na entrevista de David Gabriel após o encontro?
Após o encontro com o lojistas naquela sexta a tarde, o vice-presidente de vendas da Marvel, David Gabriel, foi convidado pelo próprio IcV2 a dar uma entrevista e complementar alguns pontos sobre o mercado no sábado. O que parecia ser um simples complemento da discussão anterior acabou se tornando um tanto quanto catastrófico ao David Gabriel falar um pouco demais do que deveria agora que estava longe dos lojistas. Segue a transcrição literal do começo da entrevista aqui:
 
ICv2: Você comentou ontem que em outubro, tudo mudou. Pode clarear melhor o que isso significa?
David: Gabriel: Houve uma grande mudança em todo a indústria e teve uma série de fatores por trás. Eu acho que ali teve um momento em que todos quiseram culpar as estratégias das editoras. Mas eu acho que a economia também deve ser culpada um pouco. E por economia, eu quero dizer o que acontece no mundo lá fora e que levou as pessoas a gastar menos dinheiro em outubro e novembro. Eu sei disso porque, com todos os retornos que vieram da Diamond, houve um momento difícil no mercado. Perdeu-se dinheiro no mercado por conta desses retornos. Houve uma trabalheira dos lojistas para fazer com que todos esses retornos voltassem. Por isso, teve uma revolta. Teve revolta por razões econômicas. Houve revolta por muitas razões para todos nós.
 
Há de fato muitos produtos saindo ao mesmo tempo. Todos sentimos um baita chute na bunda com isso. O que eu costumo dizer é que, depois de olhar tudo que estava acontecendo, sabíamos que tinhamos que fazer algumas mudanças, mas não podíamos fazer algo já pro mês seguinte. Tínhamos que esperar uns seis meses para as coisa começarem a tomar seu lugar. E é o que estamos fazendo agora. Espero que isso esteja claro pra eles agora.
ICv2: Parte disso, mas eu senti que tem uma mudança de ares, porque coisas que vocês estavam fazendo antes no passado não estavam funcionando mais do mesmo jeito. Você também entende isso ou estamos compreendendo algo de errado?
David Gabriel: Não, também acho isso. Eu não sei se esses consumidores que tinham gostado do que fazíamos nos últimos três anos estão de fato apoiando tudo o que estamos tentado,  qualquer coisa que nós tentamos, qualquer um dos novos personagens que trazemos, ou mesmo se eles estavam realmente comprando naquele momento, ou se, eles mudaram de ares, como você disse. Mas o que definitivamente houve foi que deram as costas para as coisas que estávamos fazendo com sucesso pelos últimos três anos, e que isso não se tornou mais viável. Vimos isso acontecendo e tivemos que reagir. Então, foi isso.
ICv2: A pergunta de um milhão de dólares. Porque essa mudança de ares?
David Gabriel: Não sei se essa é uma questão para mim. Acho que essa é uma questão que é mais para os lojistas que trabalham com todas as editoras. O que escutamos por aí é que as pessoas não queriam mais diversidade. Que eles não querem mais personagens femininos. Foi o que escutamos, quer nós acreditemos nisso ou não. Eu não sei se isso é verdade, mas é o que vimos acontecer nas vendas. O que vimos acontecer nas vendas é que qualquer personagem ligado a diversidade, qualquer personagem novo, nossos personagens femininos, qualquer coisa que não fosse um personagem do núcleo da Marvel, as pessoas estavam dando as costas. E isso foi muito difícil pra gente, pois tínhamos uma série de novas e excitantes ideias que estávamos querendo trabalhar com eles e nada d e novo parecia estar funcionando.
 
Foram as coisas mais antigas voltando que deram certo nesse período, no caso três gibis em particular. o Homem-Aranha: Renovar os votos, aquele em que o Homem-Aranha e a Mary Jane estão casados, que funcionou. Foi a revista do Venom e a revista do Thanos que funcionaram. Você pode concluir o que quiser das pessoas que gostaram dessas três revistas, mas que é definitivamente e especificamente um tipo de leitor e colecionador de quadrinhos que realmente gostou dessas séries.
 
 
Foi essa última resposta que acabou colocando Gabriel em apuros e foi intensamente replicada por alguns sites especializados de quadrinhos de uma hora pra outra. Imediatamente, Gabriel precisou contactar o ICv2 para adicionar um adendo a questão e reafirmar que a posição da editora sobre o apoio aos novos heróis. Na nota, temos:
 
“Ao discutir candidamente por alguns lojistas na reunião, escutamos que alguns deles não estão felizes com o nosso falso abandono dos heróis principais da Marvel e, ao contrário do que muitos disseram que eles não funcionavam, o fator principal e a popularidade que a maioria desses novos títulos e dos personagens como a Garota-Esquilo, Miss Marvel, Poderosa Thor, Gwen-Aranha, Miles Morales e Garota da Lua tem, continuam a provar que nossos fãs e nossos lojistas ESTÃO animados quanto a esses novos heróis. E que fique claro, esses nossos novos heróis não vão para lugar algum. Estamos orgulhosos deles e animados de continuar introduzindo esses personagens únicos que refletem as novas vozes e novas experiências dentro do Universo da Marvel e vamos parear eles com nossos heróis icônicos”.
 
“Também estamos ouvindo das lojas que receberam e abraçaram esses novos personagens e títulos que eles querem mais! Eles estão revigorando assim sua própria base da clientela e isso ajudou a eles crescerem suas lojas por conta disto. Então, nós vamos apostar nos dois lados da história e a única mudança por vir é que estaremos fazendo de tudo para assegurar que não mais perderemos o foco em nossos heróis principais”
Apesar de na reunião ter sido explorados muitos outros fatores que podem ter contribuído para as recentes baixas vendas da Marvel, e mesmo com esse adendo feito posteriormente ao depoimento inicial na entrevista, as palavras iniciais de David Gabriel que pareciam soar quase como um desabafo pesaram na internet logo após as matérias serem disponibilizadas online. Junto com o burburinho causado pela maioria dos lojistas, a entrevista dada por David deixou a situação da Marvel ainda mais embaraçosa do que antes da reunião.
E quais são as implicações diretas sobre tudo isso?
Tudo leva a crer que a Marvel já tenha criado uma resposta rápida para não se colocar em maus lençóis nos próximos meses e é bem possível que vejamos o desdobramento disso já no segundo semestre. Ciente de que se encontra num momento de transição entre os perfis de seus leitores, a editora percebeu que ao invés de buscar uma renovação plena da sua linha de heróis pelos novos personagens, precisará manter os antigos medalhões por perto de novo por mais um tempo. O anúncio de Generations no mês passado é a maior evidência disto. É uma série de especiais em que o clássico se reafirma, mas apresenta ao mesmo tempo aqueles que eventualmente podem ser o futuro. É uma maneira de dizer para seu conflitante público que duas gerações que pensam diferentes podem conviver juntos neste mesmo lugar.
Paralelamente, ela deve se preocupar mais em difundir a nova geração em outras mídias, mas sempre ao lado dos heróis icônicos que já se entranharam na memória popular de todos nós. O que aponta isso é que em março também foi anunciada uma nova estratégia de Marketing multimídia da Marvel chamada de “Marvel Heroes Come in All Sizes”. É uma iniciativa em parceira com a divisão da Disney para Produtos Consumíveis & Midia Interativa de licenciamento global. A campanha vai dos quadrinhos e filmes até brinquedos e jogos. A ideia é que se crie produtos que atendam ao mesmo tempo as crianças e os leitores antigos adultos. Por isso, a imagem de divulgação tem desde o bebê Groot até o Hulk, do Doutor Estranho a Garota Esquilo. A prerrogativa aqui é que para fixar no seu público esses novos personagens ao universo dos quadrinhos seja mais fácil enlaça-los através de outras mídias que não os gibis.
Ainda assim, a divisão de quadrinhos tem uma série de outros problemas para lidar ainda, como encontrar maneiras mais firmes de preservar e estimular seus talentos criativos e buscar melhores alternativas de promover edições mensais sem necessitar renumerá-las ou apelar para excesso de capas variantes. Quanto ao fato de ampliar as opções de títulos para atender as diferentes demandas dos perfis de leitores, em médio prazo isso continuará a complicar o problema da saturação de mercado e canibalização dos próprios títulos da qual a Marvel é acusada pelos lojistas. Em algum momento, ela deve encarar a dura realidade de uma retração de seus títulos mais uma vez e alguns serão colocados na geladeira. A decisão sobre quais devem permanecer, vai além da política da própria empresa. O mercado irá determinar como apontaram os lojistas no começo do artigo.
De fato, como costumo dizer, a Marvel sempre foi uma editora a frente de seu tempo. Seus leitores, necessariamente, não. Seu papel no entanto de buscar outros caminhos e agitar o mercado com novas ideias está sendo cumprido constantemente. O que a história mostra até agora é que algumas dessas novas ideias e personagens, serão marcantes e irão ser absorvidos, colocando-se com o tempo ao lado dos outros clássicos. Há inúmeros exemplos disto no decorrer dos seus mais de 50 anos.

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Publicado às 04/04/2017 por em Quadrinhos e marcado .

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